4 de dez de 2016

O duelo de Galois

Durante a madrugada inteira de $30$ de maio de $1832$, o matemático francês Évariste Galois escreveu, escreveu e escreveu. Nas margens do caderno, como um símbolo de seu desespero, anotou: “Não tenho tempo, não tenho tempo”. Ele sabia que estaria morto antes de o Sol nascer, provavelmente com um tiro na testa. Tinha apenas $20$ anos, mas muita coisa a dizer. Especialmente sobre os números que vinha rabiscando de maneira confusa desde os $16$. Equações incompreensíveis na opinião de alguns célebres matemáticos, talvez equivocadas.


Doze anos depois, os rascunhos – e as anotações insanas daquela noite – foram finalmente examinados. O rapazote Galois era um gênio! Sua complexa teoria de grupos abria todo um novo campo para a álgebra. Algo que no século seguinte seria fundamental para o desenvolvimento dos computadores, por exemplo.

Mas em $1832$ nada disso parecia possível. O jovem Évariste estava atolado até o pescoço em uma confusão dos diabos. Ou melhor, diversas confusões. A escalada começou em $1829$, com o suicídio inesperado de seu pai após uma briga feia com inimigos monarquistas. O país estava dividido em facções apaixonadas, opondo católicos a protestantes, republicanos a monarquistas, e Galois resolvera ser republicano até a morte.

Tanto que se envolveu em uma bela enrascada ao fugir da escola para participar das manifestações contra a posse do rei Luís Felipe, em $1830$. Foi expulso e nem se abalou: alistou-se imediatamente na Guarda Nacional, logo desativada por decreto real. Um ano depois foi preso por ameaça ao rei: brandira sua espada numa reunião de republicanos. Ainda voltou à cadeia por usar o uniforme da proscrita Guarda Nacional.

Pior que sua sorte na política, só mesmo na academia. Imberbe, tentava provar que tinha algo a dizer sobre equações. Aos $16$ e aos $18$, tentou sem sucesso entrar na Escola Politécnica, onde circulavam os principais matemáticos franceses da época. A Academia de Ciências fez pior: perdeu duas vezes o relatório com as descobertas de Galois e, quando colocou a mão na terceira versão, reprovou o rapaz. Os juízes simplesmente não entenderam suas ideias e não acreditaram nos resultados registrados.

Enfim, em março de $1832$, o caos político em Paris misturou-se ao pesadelo de uma epidemia de cólera e Galois deu seu último passo torto. Apaixonou-se pela filha de um médico, Stéphanie-Félicie du Motel, que não correspondia ao seu sentimento – e tinha outro pretendente. Bom de gatilho, Pescheux d’Herbinville.

Poucos detalhes sobraram dessa tragédia francesa. O próprio Galois tentou fazer parecer que se tratou de um conluio político para eliminá-lo. Mas também deu a entender que a discussão com o desafiante para um duelo pode ter girado em torno de Stéphanie. Em seus rabiscos aflitos, Évariste a chama de prostituta e deplora a trágica estupidez de ter se envolvido num combate de vida ou morte.

O que se sabe é que na manhã daquela quarta-feira, $30$ de maio de $1832$, Galois foi defender sua honra. Escolheu uma das pistolas, deu $25$ passos, virou-se e... tomou o esperado balaço no estômago. Agonizou no hospital até o dia seguinte. Antes de morrer teria dito a seu irmão: "Não chore, preciso de toda a minha coragem para morrer aos vinte anos". E morreu sem saber que, deixando um legado de apenas $60$ páginas de garranchos, viria a ser considerado não só um dos mais criativos pensadores que a ciência já teve, mas uma das pedras fundamentais na evolução da matemática.

Referências:

[1] Revista Super

Veja mais:

Períodos matemáticos
Emmy Noether e a Álgebra moderna
Teorema da decomposição de polinômios

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